O Brasil e a crise por causa da greve de caminhoneiros: até quando o país vai ser refém dos combustíveis fósseis?

Marcello Casal jr/Agência Brasil

Na esteira da crise no abastecimento de combustíveis provocada pela greve nacional de caminhoneiros, o debate sobre a necessidade de alternativas à gasolina, ao diesel, etanol, carvão e ao gás é uma consequência quase óbvia. A mobilização durou pouco mais de uma semana – tempo suficiente para demonstrar os graves problemas estruturais e conjunturais presentes na administração pública brasileira.

Mundialmente, inúmeros países já se debruçam sobre o assunto e isso há décadas. O Brasil, até agora, adiava a discussão, mas a especialista em políticas de desenvolvimento sustentável de longo prazo Natalie Unterstell acredita que é possível transformar as dificuldades trazidas à tona com as manifestações em impulso.

Segundo ela, trata-se da chance ideal para o surgimento de iniciativas inteligentes de promoção da chamada energia limpa.

Natalie é mestre em Políticas Públicas pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e afirma que é preciso admitir a socialização de prejuízos via concessão de benefícios tributários a grupos de pressão, como esses que ocorreram recentemente aos caminhoneiros.

Para dar fim à paralisação da categoria, o governo federal determinou a redução de R$ 0,46 no preço do litro do diesel nas bombas por 60 dias e a isenção da cobrança de pedágio para os eixos suspensos de caminhões vazios. O presidente Michel Temer (MDB) anunciou ainda que 30% dos fretes da Conab sejam reservados a caminhoneiros autônomos e a criação de uma tabela mínima para esse tipo de serviço.

Estudos de um grupo de pesquisadores liderados por acadêmicos da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, apontam para uma queda brusca na demanda por combustíveis fósseis até 2035. Essa mudança deve ser puxada pelo barateamento da tecnologia de energia limpa à medida que os investidores começarem a exigir isso devido aos limites impostos aos gases geradores do efeito estufa.

O reflexo esperado é um corte na economia global de até US$ 4 trilhões – ou quase R$ 15,4 trilhões. A cifra representa muitas vezes o prejuízo provocado pela crise financeira mundial de 2008.

Os estudiosos defendem ainda que, mesmo que novas políticas climáticas não sejam adotadas, o mundo já atingiu um ponto sem volta que inviabiliza a venda de ativos das maiores empresas de energia.

A produção de carros de passeio movidos à diesel é proibida no Brasil por causa dos impactos ao meio ambiente. Assim, a volta deles representaria um retrocesso.

Há inclusive um projeto do senador Temário Mora, do PTB de Roraima, que veda gradualmente o comércio de veículos novos movidos a combustíveis fósseis. A ideia, pelo texto, é que esse tipo de venda seja totalmente eliminada a partir de 2060.

Atualmente, há mais de um bilhão de carros no mundo e a previsão é de que, em 2040, o planeta chegue à marca de dois bilhões e todos esses veículos precisando de combustível.

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