Lula diz que é “troféu da Lava Jato”; veja a íntegra do depoimento

Reprodução / JF-PR

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta quarta-feira (14), em interrogatório na Justiça Federal em Curitiba, que é um “troféu da Lava Jato”, mas que ainda não sabe para quem. Lula deixou pela primeira vez em sete meses a prisão na Polícia Federal, no bairro Santa Cândida, para participar da última audiência no processo que apura se ele foi beneficiado por obras no sítio de Atibaia, que foram patrocinadas por empreiteiras.

Advogados que acompanharam o interrogatório disseram que a juíza substituta da 13ª Vara Federal, Gabriela Hardt, conduziu a audiência de maneira mais amistosa do que as anteriores, presididas pelo juiz Sérgio Moro. Em um dos momentos de tensão, no entanto, a juíza repreendeu Lula por supostamente incitar a militância do PT contra o Ministério Público.

Lula reconheceu no depoimento que a Lava Jato descobriu um esquema de corrupção, mas afirma que a operação errou ao considerá-lo um “troféu”.

Sobre o processo, Lula afirmou que o empreiteiro Léo Pinheiro, da OAS, é o único que tenta ligar a reforma que a empresa providenciou em uma cozinha do sítio de Atibaia a um “caixa geral” de propina para o PT, e que ele nunca soube disso. Lula confirmou que sabia da reforma da cozinha, mas que tinha certeza que outra pessoa havia providenciado pagamento.

Questionado pela juíza Gabriela Hardt, Lula confirmou que falou com o engenheiro da OAS Paulo Gordilho sobre a reforma.

Lula afirmou que a Lava Jato nunca encontrou contas do PT ou do ex-tesoureiro do partido João Vaccari Neto no exterior. A juíza Gabriela Hardt lembrou que contas no exterior foram identificadas em nome de marqueteiros, empreiteiras e políticos. Em resposta, Lula afirmou que os delatores foram beneficiados com a Lava Jato.

Em depoimento, Fernando Bittar, dono do sítio, disse que não realizou pagamento pelas obras. Em resposta ao Ministério Público, Lula disse que as empreiteiras é que deveriam cobrar. O ex-presidente disse que não tem mais como perguntar à ex-primeira dama Marisa Letícia, que morreu em fevereiro de 2017, se ela havia tratado do pagamento.

Lula confirmou que Marisa adquiriu bens e benfeitorias para o sítio. A juíza então questionou se ele ou Marisa tinham conhecimento da obra de R$ 700 mil que foi providenciada pela Odebrecht. Gabrila Hardt lembrou que notas fiscais referentes à obra foram encontradas na casa de Lula.

Lula disse que não acredita que Marisa Letícia tenha pedido a empreiteiras que realizassem obras no sítio. Para ele, delatores teriam dito isso por ser mais “cômodo”, já que ela não pode mais se defender.

Para explicar que não poderia dar uma contrapartida às empreiteiras, Lula afirma que o presidente da República não consegue influenciar nas licitações da Petrobras, que foram fraudadas.

Lula responde a três processos em Curitiba. O primeiro depoimento dele foi realizado no processo do triplex do Guarujá, em 10 de maio do ano passado. Ele foi condenado a 9 anos e 6 meses de prisão em primeira instância por corrupção e lavagem de dinheiro.

Lula foi acusado de ter sido favorecido pela OAS com uma reforma de adequação do apartamento, que acabou nunca tendo sido efetivamente usado pela família do ex-presidente. A pena foi aumentada pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região, em Porto Alegre, para 12 anos e um mês. É o cumprimento antecipado dessa pena que deu origem à ordem de prisão de Lula, cumprida no dia 7 de abril deste ano, ou seja, há pouco mais de sete meses.

Ainda antes de ser preso, em 13 de setembro do ano passado, o ex-presidente esteve em Curitiba para o segundo interrogatório, no caso que apura a doação de um terreno para o Instituto Lula pela Odebrecht. O processo está concluso para sentença. Ao mencionar os três processos, do triplex, do terreno e do sítio, Lula disse que seu esforço agora é suportar as ações e desmentir acusações contra ele.

No processo do sítio de Atibaia, Lula é acusado de ter sido beneficiado por reformas que custaram R$ 1,020 milhão. O valor soma gastos custeados pelo empresário José Carlos Bumlai, pela Odebrecht e pela OAS. Em troca, as empreiteiras teriam sido favorecidas em seis contratos com a Petrobras. Além de Lula, são mais 12 réus na ação penal.

A denúncia foi recebida pelo juiz Sérgio Moro em 1.º de agosto do ano passado. E desde o começo deste mês está sob a responsabilidade da juíza federal Gabriela Hardt, que assumiu os processos com o afastamento de Moro para ocupar o Ministério da Justiça no próximo governo.

A defesa de Lula afirma que o ex-presidente jamais praticou qualquer ato em benefício de empreiteiras durante o período em que ocupou o cargo de Presidente da República e tampouco recebeu qualquer vantagem indevida na forma da compra de bens ou em reforma de imóveis. Lula sustenta que não é dono do sítio, que está registrado em nome dos empresários Jonas Suassuna e Fernando Bittar. Suassuna é sócio de um dos filhos do ex-presidente, Fábio Luis Lula da Silva. Fernando Bittar é filho de Jacó Bittar, ex-prefeito de Campinas e amigo de Lula. Todos alegam que a propriedade era apenas usada pelo ex-presidente.

A defesa do ex-presidente afirma que ele apenas frequentou o local, com familiares, como convidados da família Bittar – em razão de uma amizade de mais de 40 anos.

Reportagem: Narley Resende / Lenise Klenk / Thaissa Martiniuk / Cleverson Bravo

Veja a íntegra do depoimento:

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