Curitiba

Transexualidade em cena

A peça escancara a hipocrisia da sociedade no trato com as pessoas transexuais

 Transexualidade em cena

Foto: Alessandra Haro

“Para eu estar aqui esta noite alguém precisou morrer”, inicia a personagem (sem nome) interpretada por Leonarda Glück, na peça Trava Bruta, que teve sua estreia na última terça-feira (5), em um Guairinha lotado. “Este espetáculo é para eu ficar livre de mim mesma. É um recado para a vida. É um recado para Deus”, arremata.

Misto de performance, manifesto, palestra, poesia e cantoria, a peça traz Glück em um monólogo que aborda a transexualidade e seus efeitos na mente e vida social de pessoas que não se identificam com o próprio gênero de nascença. Mas, embora esse seja o tema-guia, o texto toca em outros pontos, como a política, religião e cultura, que podem gerar uma identificação imediata no público, principalmente em pessoas cisgênero.

“As pessoas trans já sabem bem sobre o que eu falo na peça, vivenciam no dia-a-dia”, diz Leonarda. “Nesse sentido, a peça se direciona para os cis, que, em sua maioria, desconhecem a realidade dessas pessoas. É uma tentativa de normalizar, de humanizar.” 

Trava Bruta começou a ser escrito por Glück entre 2018 e 2019, quando ainda morava em Curitiba, sua cidade natal. “Ia escrevendo aos poucos, juntando ideias e indagações, às vezes em forma de prosa, outras em poema”, explica. A ideia surgiu de uma angústia repentina: a de talvez nunca ter conseguido abordar intimamente a sua experiência transexual em texto para os palcos.

“Meus amigos me diziam: ‘Você é artista, fala disso, sim, também, por que não?”’ diz a atriz. “Arrastei por meses a tarefa de terminar o texto”. Então ela se mudou para São Paulo e, depois de um tempo, submeteu alguns projetos em editais culturais da cidade. Em 2020, Trava Bruta foi aprovada no Edital de Dramaturgia do CCSP. 

Mas, assim como muitas outras peças, Trava Bruta foi impedida de seguir adiante por causa da pandemia. Foi só no ano seguinte que a montagem começou a ser pensada. E para a direção, a atriz convidou Gustavo Bitencourt, um amigo de longa data.

“Tenho uma história muito ligada à performance e à dança e isso trouxe uma cara de teatro contemporâneo e experimental para a peça”, afirma Gustavo. “Apresentei muito das minhas referências, mas me senti numa missão de facilitar a execução do texto que a Léo tinha na cabeça, e não criar em cima dele.”

Em pouco mais de uma hora de apresentação, dividida em três atos, Glück permanece sozinha no palco. No entanto, há outros elementos teatrais que compõem o cenário e dão continuidade à narrativa, como o jogo de luzes — que segundo o diretor contam uma história própria —, música e projeção. E cada elemento ganha destaque a cada ato.

O primeiro ato, por exemplo, se desenrola em imagem de vídeo da atriz projetada em uma tela no canto esquerdo do palco, enquanto ela interpreta uma música poética e intensa, em cima de uma base instrumental eletrônica frenética. 

A música também está presente no segundo ato, momento em que finalmente Leonarda assume o centro do palco e canta num estilo mais burlesco; nesse momento, iluminação e figurino dão um show à parte, e constroem um ambiente de teatro de cabaré — influência da experiência de Gustavo nesse tipo de performance. 

Segue até um momento dramático em que a atriz, sentada em uma cadeira giratória, quebra a quarta parede e se comunica diretamente para o público: “Eu não estou aqui hoje, nesta noite, para dar a vocês informações sobre como funciona a medicalização desse assunto. Não vou falar para vocês como se faz a terapia hormonal, que remédios essas pessoas tomam e por quais vias, não vou falar”.

Nessa parte do monólogo, Glück assume uma atuação mais visceral — o tom exato que o tema exige — e apresenta dados assustadores, como por exemplo o dado que o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo — o país também é o maior consumidor mundial de pornografia com travestis —, sendo seguido pelo México que aparece nesse ranking macabro com menos da metade das mortes. E exemplifica essa violência ao trazer uma tragédia que aconteceu em Campinas em 2019: “Um assassino matou a travesti e com cacos de vidro arrancou seu coração. No buraco que ficou no corpo da vítima — sorrindo, o homem a chamou de demônio — enfiou a imagem de uma santa. O coração da vítima o assassino levou para casa”. Esse clima de choque se estende até o terceiro ato, em que Glück discorre sobre o sistema patriarcal em contraponto à vivência feminina. “Preciso sonhar. Se não eu não me aguento.”

“É um texto muito pessoal, um texto sobre a Léo ser uma artista mulher trans e a sua visão de mundo”, explica o diretor. “Embora seja uma peça solo, foi construída com muitas mãos. A música, figurino, iluminação e projeção de vídeo são fundamentais para o sucesso do espetáculo.”

Além de solidificar a parceria de anos da dupla, Trava Bruta também marca os 25 anos de carreira da atriz, autora, dramaturga e diretora Leonarda Glück, que comemorou em grande estilo, com o Guairinha lotado em sua capacidade máxima. “Fiquei surpresa com o convite, mas muito feliz”, diz, já em seu camarim, recuperando o fôlego. “É sempre bom retornar a Curitiba. Aqui moram meus amigos e familiares. E poder estrear uma peça no Festival é sempre um prazer.”

A reportagem faz parte do projeto especial para o site bandnewsfm feita em parceria com estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Positivo. O texto é de Luiz Felipe Cunha.

Band News Curitiba - 96,3 FM

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